Ausência de Renan marca comemoração de um ano do governo Temer

Michel Temer é empossado presidente da República em cerimônia realizada no Congresso Nacional, em Brasília

Na tentativa de contornar o mal-estar provocado pela cadeira vazia, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, citou duas vezes o peemedebista no discurso e fez um agradecimento a ele pela ‘parceria’

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

A cerimônia realizada nesta sexta-feira para comemorar um ano do governo Michel Temer, no Palácio do Planalto, foi marcada pela ausência do líder da bancada do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL). Na última temporada, Renan se destacou por fazer críticas à gestão Temer e, de aliado, foi batizado ironicamente como líder da oposição.

Na tentativa de contornar o mal-estar provocado pela cadeira vazia de Renan, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), citou duas vezes o peemedebista no discurso e fez um agradecimento a ele pela “parceria”. Embora aborrecido com a ausência, Temer não acusou o golpe.

Focou o pronunciamento no balanço de suas ações e mostrou-se empenhado em apresentar um governo de resultados, apesar da crise política e econômica. Nessa estratégia, até mesmo o mantra usado por ele sobre a necessidade de por o “Brasil nos trilhos” virou marca da propaganda de um ano de governo.

Em 22 minutos de discurso, diante de uma plateia formada por ministros, deputados e senadores – muitos dos quais alvejados pela Lava Jato –, o presidente defendeu as reformas da Previdência e da lei trabalhista. Não parou por aí: disse que o desemprego é “a pior herança da época de gastos descontrolados” e deu estocadas no PT ao afirmar que arrumar a casa “não é uma questão de ideologia política, mas de responsabilidade”. Foi, assim, na contramão da narrativa do “nós contra eles”, entoada por petistas. “Nós não queremos brasileiros contra brasileiros. Queremos brasileiros com brasileiros”, insistiu Temer.

No fim da cerimônia, porém, a ausência de Renan voltou a ser comentada no Salão Nobre do Planalto. Ao dizer que o PMDB tende a fechar questão a favor da reforma da Previdência, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), foi lembrado de que Renan é contra a medida. Jucá abriu um sorriso. “Cada coisa na sua hora”, respondeu.

Presidente do PMDB, Jucá foi questionado, então, como seria possível fazer a “transição” para Renan passar da condição de crítico contumaz do governo a apoiador das reformas. “Ué, nós não fizemos a transição do governo?”, devolveu o senador. “A nossa relação com Renan está ótima. Ele foi até homenageado aqui…”

Na prática, porém, o ex-presidente do Senado se tornou a “pedra no sapato” de Temer, criando vários obstáculos para que as reformas trabalhista e da Previdência avancem na Casa. “Tenho muita dificuldade em aceitar como verdade absoluta que, para gerar emprego no Brasil, são necessárias essas medidas”, disse Renan ao Estado, antes de viajar para Alagoas, na quinta-feira.

Dois dias antes, Temer já havia chamado a bancada do PMDB para uma conversa reservada. Estava preocupado com dissidências na votação da reforma trabalhista e queria combinar o jogo.

Renan apresentou ali um estudo sobre a experiência da Espanha, com o objetivo de provar que o emprego não aumenta, necessariamente, com a flexibilização de direitos dos trabalhadores. Foi contestado por Jucá. “Romero, se eu tivesse um terço da sua convicção, as reformas não sofreriam resistência nenhuma”, rebateu Renan, irritado.

Na prática, os passos do ex-presidente do Senado são considerados uma incógnita pelo Planalto. Mesmo assim, a ordem do governo, nos últimos dias, foi a de abortar qualquer movimento contrário a Renan, como a tentativa de retirá-lo da liderança da bancada. “Nós precisamos contar com o PMDB unido. É o partido do presidente. E acredito, sinceramente, que vamos poder contar com Renan”, afirmou o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha.

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