Em visita à Rússia, Temer tentará demonstrar alguma normalidade

Por Igor Gielow –  Folha de São Paulo

O presidente Michel Temer chega nesta terça (20) a Moscou para a primeira etapa de uma viagem internacional que visa gerar a impressão de que a administração do governo segue alguma normalidade, mesmo que ela venha sendo ditada pelo ritmo da crise que eclodiu com a delação da JBS.

Temer falará em um fórum de empresários e investidores promovido pela Embaixada do Brasil na capital russa. Também se encontrará com o vice-premiê russo, Arkadi Dorkovitch, e com o presidente da Duma (equivalente à Câmara dos Deputados), Viacheslav Volodin. Acaba o dia presenciando o final de uma competição de balé no famoso Bolshoi moscovita.

Na quarta (21), tem encontro previsto com o presidente russo, Vladimir Putin, com o premiê e ex-presidente Dmitri Medvedev e com a presidente do Conselho da Federação (Senado), Valentina Matvienko. Como é uma visita de Estado, Temer depositará flores no túmulo do soldado desconhecido, na muralha do Kremlin, e será recebido em almoço por Putin.

A viagem está prevista desde dezembro, e quase foi adiada devido à volatilidade da crise política. Com a absolvição no Tribunal Superior Eleitoral e a manutenção provisória do PSDB na base aliada, o Planalto avaliou ao longo do fim de semana que as entrevistas do empresário Joesley Batista e do doleiro Lúcio Funaro seriam melhor combatidas com a manutenção da rotina.

O bunker presidencial segue acompanhando a tendência das bancadas na Câmara para o caso de a denúncia contra Temer no âmbito da Lava Jato ser apresentada com o peemedebista fora do país, o que parece improvável.

O procurador-geral, Rodrigo Janot, deverá adiar o máximo possível a apresentação para evitar o momento de força de Temer no Congresso. O governo estima ter pelo menos 250 dos 172 votos de deputados necessários para matar a denúncia no berço.

Em Moscou, a agenda de Temer está esvaziada. Irá discutir acordos para melhorar o comércio bilateral: as vendas brasileiras para a Rússia caíram 45%, para US$ 2,3 bilhões, entre 2011 e 2016. O superávit brasileiro caiu de US$ 2,2 bilhões anuais para US$ 300 milhões no período.

Não deixa de ser ironia que o principal item da pauta comercial do país é justamente o ganha-pão da JBS do empresário Joesley Batista, delator e agora processado por Temer: carne bovina. O Brasil domina estimados 60% do mercado russo. O Kremlin também busca melhorar sua posição, vendendo mais commodities para o Brasil.

A comitiva de Temer, também reduzida, terá o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, vindo da China para reforçar a negociação. Ele e o chanceler Aloysio Nunes Ferreira estavam no país asiático participando de negociações comerciais e se unirão nesta terça a Temer. O ministro Fernando Bezerra Coelho Filho (Minas e Energia) e Antonio Imbassahy (Secretaria de Governo) também são esperados.

Na quinta (22), Temer irá para a Oslo (Noruega), onde irá se encontrar com o rei e a primeira-ministra. Esta é apenas a segunda viagem internacional do presidente neste ano, contra cinco em 2016.

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