Alexandre Giordano (PSL-SP) foi ao Paraguai em jato com diretores de empresa alvo de CPI

Castiglioni prestou depoimento ao Ministério Público do Paraguai sobre o caso, que pode provocar o impeachment do presidente Mario Abdo Benítez (foto) - Foto: Jorge Adorno/Reuters

Documentos revelam que Alexandre Giordano viajou três vezes ao país vizinho, apesar de ele afirmar que participou de apenas uma reunião e não ter ligação com a Léros; em proposta oficial, empresa ofereceu US$ 31,50 KWh pela energia excedente de Itaipu

O político e empresário Alexandre Giordano (PSL-SP), suplente do senador Major Olímpio (PSL-SP), esteve pelo menos três vezes no Paraguai ao lado de executivos da empresa Léros, interessada em comercializar energia de Itaipu, revelam registros de voo divulgados nesta terça-feira.

Segundo informações obtidas pelo jornal ABC Color em colaboração com o Estado, Giordano viajou duas vezes a Assunção em jatos particulares acompanhado de executivos da Léros, a primeira em 9 de abril juntamente com Adriano Tadeu Deguimerndjian Rosa, executivo da Léros e o advogado Cyro Dias Lage Neto, além de dois tripulantes. Eles voltaram a Foz do Iguaçu no mesmo dia.

A segunda viagem foi no dia 25 de junho, quando os governos de Brasil e Paraguai já haviam firmado a ata que repactuava a divisão da energia de Itaipu. Eles voltaram no dia seguinte ao País.

Até então, Giordano admitia ter participado de apenas uma reunião em Ciudad del Este (a terceira, à qual foi de carro), em que foi discutida a possibilidade de compra de energia paraguaia de Itaipu para revenda no mercado brasileiro. Participaram deste encontro representantes da Léros. Em 1.º de agosto, o suplente de senador negou ao Estado ser representante formal da Léros.

“Não tenho nenhuma relação com esse acordo. A Léros me chamou e eu fui lá escutar a proposta da Ande sobre venda de energia. Existe uma licitação aberta, que é pública. Eu não comprei nada. A própria Léros não assinou nada”, disse.

O jornal paraguaio publicou um documento que desmente Giordano. Trata-se de uma proposta formal feita pela Léros à Administração Nacional de Energia (Ande, a estatal energética do Paraguai) assinada pelo executivo Kleber Ferreira em São Paulo em 27 de julho. No documento, a Léros oferece US$ 31,50 KWh pela energia excedente de Itaipu. Segundo a proposta, a empresa pagaria 30% do valor em efetivo no ato da entrega da energia e o restante, também em efetivo, após 90 dias. A Léros oferece ainda dividir com a Ande o lucro obtido em caso de venda acima de US$ 35 Kwh.

A Léros está na mira de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pelo Congresso Paraguaio, que deve começar a funcionar ainda nesta semana. Em entrevista à Telefuturo, o ex-presidente das Ande Pedro Ferreira disse que o nome da família Bolsonaro foi citado várias vezes durante reuniões com a Léros.

O advogado José “Joselo” Rodríguez, que se apresentava como assessor jurídico do vice-presidente do Paraguai, Hugo Velázquez, disse em mensagens a Ferreira que a Léros representava a “família presidencial” e o “governo brasileiro”.

O Estado apurou que a sede do diretório estadual do PSL de São Paulo, cujo presidente é o deputado Eduardo Bolsonaro, funcionou no mesmo prédio onde ficam as empresas de Giordano até o final de julho, às vésperas do escândalo envolvendo a ata secreta de Itaipu vir à tona.

Procurado pelo Estado, Giordano disse que “não tinha nada a declarar” sobre o caso do avião. A Léros não respondeu aos telefonemas.

Além de obrigar o governo paraguaio a aumentar o volume de aquisição de energia garantida de Itaipu (US$ 44 KWh), mais cara do que a energia excedente (US$ 6 KWh), o que implicaria o aumento da tarifa no país vizinho, o acordo entre os governos de Jair Bolsonaro e Mário Abdo Benítez suprimiu da ata o item 6, que permitia à Ande vender diretamente no mercado brasileiro a energia mais barata.

O item 6 impedia que empresas como a Léros pudessem comercializar a energia excedente do Paraguai. A revelação do acordo, considerado “entreguista” pela oposição, levou o país vizinho a uma crise política que pôs em risco os mandatos de Abdo Benítez e Velázquez. Bolsonaro aceitou o cancelamento do acordo pelo Paraguai após Benítez ser alvo de um processo de impeachment.

Audiência.

Ainda nesta terça-feira, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou requerimento do deputado Rubens Bueno (Cidadania-PR) para que os ministros Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, de Minas e Energia, participem de audiência pública com o objetivo de esclarecer os termos e as implicações do recente acordo assinado, e posteriormente cancelado, entre o Brasil e o Paraguai.

 

*ESTADÃO

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