Às portas de completar 30 anos, PSDB vive crise de identidade

Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e Geraldo Alckmin no encontro de prefeitos do PSDB em Brasília

Fernando Henrique, Aécio Neves e Geraldo Alckmin em encontro de prefeitos do PSDB, em 2016

Por Igor Gielow – Folha de São Paulo

O dilema sobre continuar ou não apoiando o governo Michel Temer jogou o PSDB na maior crise de sua história, um ano antes de a sigla completar 30 anos.

Se construiu sua reputação de partido de políticos em cima do muro, o PSDB agora se vê no meio de uma luta existencial que passa pela decisão de ficar ou não ao lado do peemedebista.

A Folha ouviu caciques e índios da tribo tucana, e o único consenso é de que em qualquer cenário o partido perde credibilidade e coesão. A absolvição da chapa que elegeu Temer pelo TSE retirou a solução indolor com que o PSDB havia trabalhado.

Se sair, a agremiação ganhará a pecha de traidora, já que apoia Temer desde sua posse interina em 2016.

O PMDB já disse que não apoiará um candidato tucano à Presidência em 2018 se for abandonado agora, e há um fato com que a classe política não contava quando eclodiu a crise da delação da JBS: o cenário em que Temer resiste até o fim do governo.

Se ficarem, os tucanos abraçam um Temer infectado pelo vírus da impopularidade, às vésperas de 2018.

De favorito para a sucessão do peemedebista, o PSDB passou a incógnita após ter sua cúpula atingida pela Lava Jato –seu presidente, Aécio Neves (MG), foi afastado do mandato de senador e corre o risco de ser preso.

Não é casual que o nome do prefeito paulistano, o novato João Doria, esteja à manga como saída de emergência: sem respingos da Lava Jato, encarnando o “novo” e ligado a um grupo vital no PSDB, o do governador Geraldo Alckmin (SP).

Por sua vez, se sobreviver às citações na Lava Jato, Alckmin se vê candidato, e torce para que Temer fique para evitar a ascensão de um presidenciável já no Planalto. O governador sempre manteve distância do governo, e pode usar isso à frente.

O fato de a pressão pelo desembarque ter sido iniciada por parlamentares jovens é reflexo do óbvio: eles terão de enfrentar o eleitor. Aqui e ali ameaçam deixar o partido, mas poucos acreditam em uma debandada, talvez de 10 dos 46 deputados.

Segundo um integrante da cúpula, toda essa incerteza torna imperativo tirar caráter decisório da reunião ampliada que acontecerá na segunda (12) em Brasília, incluindo a Executiva Nacional, congressistas e governadores.

Na quarta (7), um encontro comandado pelo presidente interino do partido, senador Tasso Jereissati (CE), indicou o grau de dificuldade da missão. No meio da tarde, só o senador Ataídes Oliveira (TO), defendia a permanência no governo a ser decidida no dia seguinte –em meio ao julgamento da cassação da chapa no TSE.

Com quórum flutuante de 15 tucanos, Tasso havia encaminhado decisão “no muro”: diria que rompeu com Temer, mas manteria apoio à agenda de reformas e deixaria seus quatro ministros à vontade para ficarem nos cargos.

Nada muito diferente do que PSB e PPS fizeram antes, mas o PSDB é o principal parceiro do PMDB no Planalto.

O ex-senador José Aníbal, que presidiu o partido e hoje comanda o instituto da sigla, chegara há pouco e tomou a palavra. Defendeu de forma inflamada que a reunião em pleno julgamento de Temer seria uma “arapuca”, segundo relatos de presentes.

Acabou seguido pelo senador Cássio Cunha Lima (PB), que pregara o desembarque. Seria preciso ganhar tempo e ler melhor a crise. Os deputados presentes, Ricardo Trípoli (SP) à frente, compraram a ideia, embora achem que a postergação custará caro.

Tasso aquiesceu, mas insistiu numa nova data, o que muitos viram como arriscado e começaram a trabalhar pelo cenário não deliberativo.

CENÁRIO LEMBRA O DA ERA COLLOR

A crise de identidade tucana tem paralelo algo distante no tempo: a indefinição sobre o apoio ou não ao governo Fernando Collor.

Desde o começo, Collor tentou atrair tucanos para seu gabinete. O presidente queria Fernando Henrique Cardoso no Itamaraty e José Serra no Planejamento. A insistência do senador Mário Covas (1930-2001) cortou o namoro.

Em 1992, o partido esteve prestes a entrar no governo -enfraquecido por denúncias de corrupção, mas num momento em que o impeachment ainda era apenas algo hipotético.

Liderados pela bancada cearense, deputados do partido fizeram maioria na Executiva e defenderam a adesão. Serra foi então incumbido de redigir os termos do acordo.

Chamou os economistas Edmar Bacha, que viria a ser um dos pais do Plano Real, e Elena Landau, que comandaria privatizações sob FHC, para elaborar o documento. Serra era contra a adesão, e Bacha achou a saída: colocou uma “cláusula do jet ski”, demandando que nenhum ministro poderia receber favores de empresários.

Era uma referência ao jet ski que o então titular da Ação Social, Ricardo Fiuza (1939-2005), havia ganho de presente da construtora OAS. Collor não gostou dos temos e o acordo foi cancelado.

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