Assim como Dilma no fim, Temer apela ao desespero no caso Loures

Sao Paulo, SP, BRASIL, 30-05-2017: Presidente Michel Temer (PMDB) passa ao lado do prefeito Joao Doria (PSDB) na abertura do Forum de Investimentos Brasil 2017 no Hotel Grand Hyatt, em Sao Paulo (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, PODER).

Parece desespero, e é. Por mais que a situação tenha melhorado por nebulosa, em favor de Temer, com a indicação de Torquato Jardim para a Justiça

Por IGOR GIELOW – Folha de São Paulo

A cada passo do estágio atual da crise política brasileira, Michel Temer se torna uma figura progressivamente indissociável daquela de sua antecessora, Dilma Rousseff (PT). O imbróglio da demissão e revolta do ex-ministro Osmar Serraglio escancarou as dificuldades do peemedebista em manter um plano coeso para recuperar a governabilidade após o sismo decorrente da delação da JBS.

Se no estertor de seu mandato Dilma fez de tudo para tentar garantir o foro privilegiado para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fugir do juiz Sergio Moro, e de quebra transformá-lo numa espécie de primeiro-ministro para tentar pilotar uma saída da crise que afogava a petista, Temer agora estuda o mesmo mecanismo para algo bem mais prosaico: evitar que um delator, o deputado afastado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), abra o bico.

E o que ele tem a dizer? Além de ter sido filmado com R$ 500 mil em propinas, já devolvidas em parcelas, oriundas da JBS, Loures é unha e carne com Temer. A expressão “carregador de mala”, corrente em Brasília para designar assessores de confiança máxima, ganha contornos realistas no caso dele. Por mais que o presidente tente se afastar o aliado preso, o mundo político todo sabe da proximidade entre os dois.

Assim, a resistência de Serraglio de ser ejetado sem honras do Ministério da Justiça virou um pesadelo político. Com a volta do deputado à Câmara, já que recusou o posto honorífico de ministro da Transparência (algo tão brasileiro), Loures perde o foro e pode ir cair na mão da turma de Curitiba capitaneada pelo juiz Sergio Moro.

É apenas uma possibilidade, pois o Supremo teria de avaliar se o deputado afastado não deveria continuar sendo investigado naquela instância, dado que o inquérito apura fatos correlatos ao presidente da República. Assim como a ida ou não de Loures para a primeira instância não é uma garantia automática de que ele fará ou não delação premiada.

Mas a mera possibilidade de Loures ter de trocar foro por Moro apavorou o Planalto, que já busca alternativas para nomear para o supracitado ministério na bancada paranaense que pode ceder a vaga para Loures não voltar à suplência e perder as prerrogativas.

Parece desespero, e é. Por mais que a situação tenha melhorado por nebulosa, em favor de Temer, com a indicação de Torquato Jardim para a Justiça, o fato é que o Planalto do PMDB teme o impacto de qualquer vento; a proverbial pinguela do presidente pende por um fio.

Os casos são diferentes, mas cabe lembrar o que ocorreu há um eterno um ano: Dilma acabou impedida e Lula responde a processo sob acusação de obstrução de Justiça.

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