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Atenas Potiguar: terra onde a poesia é espremida e desprestigiada

Por: Pedro Henrique Farias (poeta do Celebra-se Poesia)

O evento em alusão ao Dia Nacional da Poesia, realizado no Cine Teatro Pedro Amorim, na última segunda feira, dia 14 de março de 2022, com tema “A poesia que mora dentro da gente”, foi uma programação gestada durante os meses de fevereiro e março, através da parceria entre o Grupo Celebra-se Poesia, a Academia Assuense de Letras – AAL e a Prefeitura Municipal do Assú, por intermédio da Secretaria Municipal de Educação e Cultura. O combinado, na verdade, era que a programação fosse dividida entre os dias 13 e 14, mas, devido às chuvas no dia 13, toda a programação foi concentrada somente no dia 14, com previsão de início para às 19h, de modo que fosse protagonizado o trabalho dos poetas, através da exposição de seus livros e declamações de poesias, muito embora mesclando com outras manifestações artísticas. A necessidade desse espaço para os poetas parece ser uma questão óbvia, considerando que as políticas culturais no município, erroneamente, enxergam a cultura somente como evento e, portanto, ao menos nesses espaços e raros momentos, a poesia deveria ser contemplada na Terra da Poesia/ Atenas Potiguar, recentemente reconhecida pela Lei 10.926, de 10 de junho de 2021, pela então governadora Fátima Bezerra.

Ocorre que, para a surpresa dos poetas e poetisas do Grupo Celebra-se Poesia a programação foi estranhamente alterada, a começar pelo atraso, já que o evento começou por volta das 20h, e não às 19h, como planejado, e também pela concentração de belíssimas apresentações artísticas até pouco mais das 22h, acabando por deixar por último o sarau, de modo que poetas e poetisas foram ao palco espremidos, quando boa parte da plateia já havia ido embora, incluindo a vice-prefeita, por se tratar de uma segunda feira e, consequentemente, as pessoas terem os seus afazeres da semana. O que desvirtua completamente o sentido do sarau, que seria um momento de declamação para o público, e não para os próprios poetas. Soma-se a isso o fato de que sequer os livros expostos foram anunciados para conhecimento e apreciação do público pela organização do evento, um deles em lançamento, que se trata do título “Todo grito é poesia”, do poeta Alan Dantas. O evento encerrou-se às 23h, e contou com as falas de desapontamento diante da desvalorização da poesia na programação do evento pelos poetas Aldo Cardoso (Presidente do Celebra-se Poesia) e Francisco de Assis Medeiros (Presidente da AAL).

A Secretária responsável pela pasta da Educação e Cultura no município, por sua vez, cometeu uma gafe, e não mencionou em sua fala durante o evento a parceria realizada entre a prefeitura, o Grupo Celebra-se Poesia e a Academia Assuense de Letras. A ausência de menção da parceria se repetiu, através de postagem no Instagram oficial da Prefeitura, dando a entender que o protagonismo do evento foi integralmente da secretaria quando, na verdade, os poetas construíram o evento – ou pelo menos o que deveria ser o evento, e se revezaram durante o dia 14 de março e toda a semana para divulgação nas rádios locais e também na Telecab, no programa Telecultura, apresentado por Renato Wanderley.

É importante resgatar, nesse sentido, a memória da importância, atuação e protagonismo dos poetas e poetisas do grupo Celebra-se Poesia, criado inicialmente no ano de 2018 por Tales Breno Cardoso Barbosa, por nome Celebra Poesia, por ocasião de um sarau que reuniu 25 poetas e poetisas assuenses na Casa de Cultura Popular Sobrado da Baronesa. O grupo, após discussão, passou a se chamar “Celebra-se Poesia”, e hoje já conta com a participação ativa de 62 poetas e poetisas do Assú, do Rio Grande do Norte, e dos estados da Paraíba e Pernambuco. O Celebra-se Poesia já representou o Assú na cidade de Macau no ano de 2019, em evento promovido pelo multiartista Valdemir e também recentemente durante a pandemia na 1ª Noite Literária de Carnaubais, organizada por Luizinho Cavalcante e pelo poeta e professor Carlos Augusto, contando ainda com a participação dos poetas Antônio Francisco e Crispiniano Neto, então presidente da Fundação José Augusto.

Além disso, cabe mencionar que no ano de 2021, duas outras ocasiões evidenciaram, do mesmo modo, o descaso, a indiferença e a falta de traquejo com os poetas, por parte da Prefeitura Municipal do Assú. A primeira delas ocorreu na última edição da Feira da Lua no ano de 2021, quando meia dúzia de poetas se reuniram em frente a Casa de Cultura Sobrado da Baronesa para lançar seus livros, na 1ª edição da Feira Literária Rebuliço Assuense – FLIRA, idealizada por Dayse Moura. No palco principal, há bons metros de distância do lançamento coletivo dos poetas, a música ecoava, abafando o grupo de choro que se apresentava na calçada do casarão e a própria voz dos poetas, que sequer conseguiram declamar suas poesias ou conversar entre si. Nenhuma autoridade do executivo e legislativo se fizeram presentes, com exceção da referida Secretária. Em 22 de dezembro de 2021, no lançamento da Coletânea de Poemas Diversos, que reuniu versos de 18 poetas e poetisas, organizada pela poetisa Raimunda Gonçalves, realizada no Cine Teatro Pedro Amorim, mais uma vez a ausência e o desprestígio do Poder Público com a cultura e os poetas.

Vale a pena, então, reforçar: se há protagonistas na poesia assuense, esses são os poetas e as poetisas. Tudo mais é farsa, marketing e oba-oba.

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