Bobagem é o petismo não conseguir encarar a realidade

Bota bobagem nisso, Jaques Wagner

O senador eleito Jaques Wagner (PT) durante entrevista no gabinete da liderança do PT no senado

O PT demonstra uma inoxidável capacidade de fugir à realidade, como prova Jaques Wagner, mesmo sendo, entre os petistas, um dos menos refratários a aceitar os fatos como os fatos. Na entrevista com Bruno Boghossian, publicada neste domingo (9) pela Folha, Wagner começa dizendo que não é hora de autocrítica. Que bobagem. Quando será a hora? Quanto tiverem morrido Lula e todos os demais caciques petistas presos ou processados por corrupção?

Depois, Wagner ainda acrescenta: “Nessa questão de corrupção, que gente nossa fez bobagem está claro”.

É bem mais do que 99% dos petistas admitem confessar nesse quesito corrupção. Mas, ainda assim, é muito pouco. “Bobagem” é a novilíngua petista para corrupção, corrupção da grossa.

Ou, como confessou Antonio Palocci, o PT fez “um pacto de sangue” com a Odebrecht (e com outras empreiteiras também). Todo o mundo sabe que empreiteiras e corrupção são sinônimos, e não apenas no Brasil. Basta lembrar, entre dezenas de casos, que todos os presidentes peruanos deste século estão encalacrados em processos por envolvimento com a Odebrecht.

Só Lula não se sujou nessa história, apesar da promiscuidade com os Odebrecht, por eles confessada e agora aceita por Wagner? É preciso ser muito ingênuo ou muito idiota para acreditar que essa promiscuidade preserve os princípios republicanos. Clóvis Rossi – Folha de São Paulo

Não adianta dizer que Palocci só confessou para se livrar da prisão. O fato ineludível é que ele era a ligação do governo Lula1 com o empresariado em geral, empreiteiras incluídas, e, portanto, negociava ele próprio o tal “pacto de sangue”.

Palocci está dizendo, com todas as letras, o que Wagner prefere amenizar e rotular como “bobagem”.

Boghossian ainda deu uma chance para o ex-governador da Bahia ser mais honesto nas suas respostas. Perguntou o jornalista, aliás excelente:

O PT foi leniente com quem fez “bobagem”, como o senhor disse?

Wagner tirou da reta e fugiu da resposta, preferindo dizer que “a grande falha do PT foi não ter feito uma reforma política com financiamento público de campanha, já em 2003″.

É uma maneira elíptica de dizer que o PT foi condenado a roubar porque era o único jeito de ganhar eleição, de acordo com a legislação sobre financiamento de campanha.

Fica claro na pergunta seguinte e na resposta de Wagner:

Pergunta – Mas fica a impressão de que o crime é inevitável.

Resposta – É. Se na lógica da política você só ganha gastando dinheiro, e quem tem dinheiro é empresário…

Aí, chega-se ao outro grande crime do PT, que foi a política econômica absurdamente desastrosa de Dilma Rousseff. De novo, o sabonete Wagner sai pela tangente: “Sobre a política econômica do governo Dilma, não vejo constrangimento. Muita gente achava que era aquele o caminho, e eu achava outro”.

E daí? Não seria mais honesto dizer que o caminho que prevaleceu era tão incorreto que levou o Brasil à maior recessão da história? Não deveria gerar constrangimento nos petistas, fossem ou não favoráveis ao caminho escolhido?

A consequência da corrupção desavergonhada e do fracasso econômico do governo Dilma ficou evidente na eleição deste ano: o PT e a esquerda em geral perderam a rua, que correu para os braços do radicalismo de direita.

O PT e a esquerda estão presos em sua bolha, na qual a realidade não penetra nem a tiros. Prova-o a sequência de gritos não ouvidos: primeiro, foi “não vai haver golpe”. Houve o que o PT chama de golpe. Depois, foi “fora Temer”. Salvo uma intervenção divina ou da natureza humana, Temer ficará no cargo até o último dia do mandato.

O terceiro grito foi “Lula livre”. Há mais chances de Lula sofrer uma segunda condenação do que de sair da cadeia em breve.

Por fim, veio o “ele não”. E “ele” está a 21 dias de vestir a faixa presidencial.

As massas não deram a menor bola para os gritos do petismo, por mais que tentassem amplificá-lo os revolucionários de botequim, de salas de aula e de colunas de jornal.

Não obstante as evidências, Wagner continua achando que “não é hora de autocrítica”. Pretendem fazê-la depois que Bolsonaro conseguir se reeleger?Clóvis Rossi

Repórter especial, membro do Conselho Editorial da Folha e vencedor do prêmio Maria Moors Cabot.

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