Cármen Lúcia rechaça intervenção militar e diz que Judiciário cumpre seu papel

Sao Paulo, SP, BRASIL, 29-09-2017, CARMEN LUCIA, A presidente do STF, Cármen Lucia, ao deixar evento em São Paulo.

A presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, rechaçou a ideia de que o fantasma da intervenção militar esteja à espreita diante de um Judiciário incapaz de lidar com a corrupção da classe política.

A ministra foi questionada neste sábado (7), no Festival Piauí GloboNews de Jornalismo, sobre a fala de Antonio Hamilton Mourão.

Em setembro, o general da ativa no Exército apontou a tomada do poder como saída possível para a avalanche de denúncias que soterra Brasília, isso se o Judiciário “não solucionar o problema político”.

Em palestra promovida pela maçonaria em Brasília, Mourão disse que a causa não era só dele: tinha simpatia de “companheiros do Alto Comando do Exército”. As informações são de ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, Folha de São Paulo.

A declaração sem dúvida “é grave”, ainda que exposta “teoricamente para um pequeno grupo”, disse aquela à frente da mais alta corte do país. Mas, para Cármen Lúcia, o Judiciário está, sim, “cumprindo seu papel”. Fora que “não há justiça sem democracia, e o brasileiro não aguenta mais ser injustiçado”, continuou a ministra.

SEDE DEMOCRÁTICA

Disse ver demonstração dessa sede democrática em todos os lugares que vai, “desde a sala de aula, onde tenho alunos de 22 anos, até pessoas muito mais velhas com as quais eu convivo e que já experimentaram períodos ditatoriais no Brasil”. O país, para ela, hoje vive “um momento de responsabilidade, serenidade e certeza”.

Se o Judiciário dá conta do recado, o que dizer do Executivo –estaria o governo Michel Temer respondendo “frouxamente” à prosa militarista de Mourão?

A ministra preferiu se esquivar da pergunta feita pela repórter da “Piauí” Consuelo Dieguez, que mediou o bate-papo. “Sou presidente [do STF], já tenho problemas de sobra para me meter [em outro Poder]”, disse em tom bem-humorado.

Não foi o único atalho diplomático que pegou para se desviar de indagações espinhosas sobre assuntos que fervem no noticiário nacional, das suspeitas sobre a negociação entre a Procuradoria-Geral da República com os delatores da JBS até o controverso afastamento do senador Aécio Neves (PSDB-MG) pelo Supremo.

INCÊNDIOS

Dieguez abriu a conversa com um trecho do perfil de Cármen Lúcia que escreveu para a edição de junho da revista.

“Desde que assumiu o comando da mais alta corte de Justiça do país, em setembro do ano passado, ela não tem feito outra coisa senão apagar incêndios. A maioria deles provocada pelos ocupantes dos prédios do outro lado da praça: o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto”, relatou então.

A jornalista reconheceu que o texto já caducou, pois novas chamas beiram a presidência de Cármen Lúcia.

Mourão foi um dos focos de incêndio. Outro: o colega no STF Gilmar Mendes, colecionador de polêmicas.

Uma das mais vistosas se deu quando o magistrado concedeu habeas corpus a Jacob Barata Filho, conhecido como “rei do ônibus” e atual investigado por suspeita de corrupção no Rio. Barato Filho fora preso em desdobramento da Operação Lava Jato.

O homem que mandou soltá-lo não era exatamente um estranho. Segundo a Procuradoria, Mendes foi padrinho de casamento da filha do investigado –uma festa no Copacabana Palace, em 2013, que entrou na mira de manifestantes, que se aglomeraram na frente do hotel e da igreja, munidos de cartazes onde se lia “dona Baratinha” e “pego ônibus lotado, me dá um bem casado!”.

Cármen Lúcia afirmou que cabe a cada magistrado se declarar suspeito ou não para julgar um caso, sempre “um dado subjetivo”.

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