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Julgamento de Lula mostra que ninguém está acima da lei, diz jornal britânico

Luiz Inácio Lula da Silva tirou milhões de pessoas da pobreza durante seus dois mandatos como presidente do Brasil. O herói dos trabalhadores também comandou um dos governos mais corruptos na história do país —e isso de acordo com um de seus ministros.

Na noite de quarta-feira (4), Lula pagou o preço, quando o Supremo Tribunal Federal brasileiro rejeitou um apelo que evitaria que ele fosse preso, depois de ser condenado por corrupção.

A controvertida decisão pode resultar na prisão de Lula dentro de poucos dias, e marca a triste e ignominiosa queda de um político notável. Mas também mostra que ninguém está acima da lei —um desdobramento positivo, e até revolucionário, em um país onde o extremo legalismo e a ilegalidade convivem.

Primeiro, a decisão deixa completamente em aberto a já complicada eleição presidencial brasileira.

Lula queria voltar ao governo em outubro, e vinha liderando nas intenções de voto. Mas isso não significa que Jair Bolsonaro, no momento o segundo colocado nas pesquisas, tenha vitória garantida.

Candidato de extrema direita, Bolsonaro é uma perspectiva assustadora; ele faz com que as posições do  presidente americano Donald Trump pareçam amenas. Mas o fim da candidatura de Lula também faz com que desapareçam os atrativos de Bolsonaro como o “anti-Lula”.

De fato, a eliminação de dois candidatos tão extremos dará mais chance para que surjam candidaturas centristas. Um deles é Joaquim Barbosa, o respeitado ex-presidente do Supremo Tribunal Federal.

Segundo, os partidários de Lula rejeitaram a decisão judicial e a definiram como prova de uma caça às bruxas direitista contra o PT (Partido dos Trabalhadores), a esquerda em geral ou, de fato, qualquer pessoa que veja os prementes problemas sociais do Brasil como prioridade. Mas isso está longe de ser verdade.

Os juízes e promotores brasileiros vêm sendo imparciais em sua busca de justiça, em todos os quadrantes do espectro político. Políticos de direita como Eduardo Cunha, antigo presidente da Câmara dos Deputados, foram presos depois de condenações por corrupção. O ex-governador do Rio de Janeiro,  Sérgio Cabral, foi sentenciado a 14 anos de prisão. O presidente Michael Temer está sendo investigado. E Lula não é tão santo quanto costumam retratá-lo.

O ex-líder sindical deu voz aos pobres. Em suas presidências, de 2003 a 2011, a proporção de brasileiros que viviam na pobreza caiu em 50%. São realizações notáveis. Mas não são mais notáveis do que aquilo que aconteceu em países centristas como o Peru e o Chile —ou, de fato, muitos outros países sul-americanos beneficiados pela munificência do boom nos preços das commodities.

A presidência de Lula pode ter sido mais carismática que a de líderes de outros países, mas os resultados não foram muito diferentes. As consequências —a pior recessão na história do Brasil— foram certamente piores.

Este último ponto talvez seja o mais importante. Nos últimos quatro anos, o sistema judiciário do Brasil vem investigando e processando os responsáveis por dois dos maiores esquemas de corrupção do planeta: o da estatal de petróleo Petrobras e o da empreiteira Odebrecht, cujo dinheiro bancava boa parte da política externa “arco-íris” da era Lula.

A lista de presidentes, líderes políticos importantes e empresários da região que se viram expostos é impressionante. Pedro Pablo Kuczynski, que renunciou à presidência do Peru no mês passado, é apenas o mais recente exemplo.

É provável que nenhum outro país de mercado emergente tenha ido tão longe no combate ao flagelo da corrupção, e tudo dentro da lei. O processo contra o ditador chileno Augusto Pinochet foi um ponto de inflexão para os defensores dos direitos humanos, e esta campanha contra a corrupção na América Latina também pode sê-lo. Os juízes e promotores brasileiros merecem todo o crédito.

FINANCIAL TIMES

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