Na Baixada Santista, chuva forte deixa ao menos 13 mortos e 45 desaparecidos

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As chuvas fortes que atingem a região da Baixada Santista desde a tarde de segunda-feira, 2, já provocaram ao menos 13 mortes nas cidades de GuarujáSantos e São Vicente.  Quarenta e cinco pessoas estão desaparecidas. O número foi atualizado pelos bombeiros.

O principal local com registro de mortes até o momento é o Guarujá, com 11 óbitos. A cidade tem 32 desaparecidos. Um dos locais mais atingidos é o Morro do Macaco Molhado e no Jardim Centenário. A prefeitura da cidade decretou estado de emergência. Pelo menos duzentas pessoas estão desabrigadas no município. Na manhã desta terça, o prefeito Valter Suman (PSB) sobrevoou as áreas mais atingidas junto com o coordenador da Defesa Civil do Estado, coronel Walter Niakas Júnior.

Em entrevista à Rádio Eldorado, o coronel Endel Ricardo Pereira, diretor de operações da Defesa Civil estadual, confirmou que entre as vítimas estão dois agentes do Corpo de Bombeiros. Eles participavam de uma operação de resgate no Morro do Macaco Molhado, no Guarujá, e foram atingidos por um novo deslizamento, que deixou um deles morto, enquanto o outro continua soterrado.

O bombeiro que morreu, cabo Moraes, foi atender o chamado do primeiro desabamento, ainda na noite de segunda. Durante o resgate, a equipe foi surpreendida por outro desabamento. Cabo Batalha, que também atendeu ao primeiro chamado, ainda é procurado. Eles tentavam encontrar uma mãe com o bebê, os dois também foram encontrados mortos.

Ainda de acordo com os bombeiros, o número de desaparecidos não indica necessariamente que estas pessoas estejam nos escombros.

O ajudante de pedreiro Luciano Martins de Oliveira, conhecido como Aranha, de 59 anos, estava dormindo em casa no momento do deslizamento, por volta da 1h30, no Morro do Macaco Molhado. Ele chegou a ficar soterrado até o umbigo, sendo ajudado a sair por vizinhos e bombeiros. “Achei que iria perder metade do corpo. Me ajudaram a sair pela janela”

No início da tarde, mesmo com a chuva, ele estava nas proximidades da casa, preocupado em conseguir os documentos, mas a casa, de madeira, em que vivia há 6 anos, desmoronou. “Não tenho lugar para ir. Perdi tudo, estou só com a roupa do corpo mesmo.” Luciano não quer mais ficar no Morro do Macaco Molhado. “Dá medo, essa chuva não para”, diz. “Mas o importante é estar vivo”, acrescenta.

 “Veio aquela água, aquela lama correndo um monte, parecia aquilo que teve em Minas. Como era o nome mesmo daquele lugar?”, disse, referindo-se a Brumadinho, onde o rompimento de uma barragem deixou ao menos 270 mortos. Como ainda chove na região, o Corpo de Bombeiros pediu para moradores e jornalistas se afastarem do local de um dos desmoramentos. Nas ruas da parte mais baixa, a população usa enxadas, carrinhos de mão e outros equipamentos para retirar a lama avermelhada.

Os moradores do local estão tentando ajudar os bombeiros na retirada de escombros e localização de desaparecidos. “Não estava em casa, cheguei depois. Estava feio, uma escuridão, não tinha o que fazer. Todo mundo conhece o outro aqui. Foi difícil, porque perdemos uma amiga, seu filho e o bombeiro que estava tentando ajudar. Tem gente aqui desde ontem (segunda-feira) ajudando. É muito triste”, disse Fabiano Barbosa, vizinho das vítimas e voluntário.

O cenário no Morro do Macaco é de destruição. Barracos vieram abaixo, móveis e eletrodomésticos estão destruídos, além de muita lama e dificuldade para retirar os escombros na procura por sobreviventes. No alto do morro, os voluntários, enfileirados, ajudam na retirada da lama. Um balde passa de mão em mão até ser despejado em um área isolada. Os bombeiros realizam movimentos minuciosos na tentativa de evitar outros deslizamentos e são avisados pelo som de um apito quando algo de pior pode acontecer.

“Fiquei muito triste quando cheguei lá em cima, porque são pessoas que conheço há muito tempo. Moro aqui há 50 anos. Eu gostaria de ajudar, mas não posso porque sou operado da coluna. Fiquei muito feliz em ver as pessoas ajudando”, ressaltou Gilvan Nunes, morador do Morro do Macaco.

“Tudo tremia na casa”, lembra a dona de casa Bruna da Rocha, de 27 anos, que mora nas proximidades de um dos deslizamentos.  “Começou todo mundo a gritar, chorando, pedindo ajuda para eles”, relata. “Moro aqui há 27 anos e nunca vi algo assim na minha vida. É a primeira vê que acontece uma coisa dessas.”

A controladora de acesso Letícia de Carvalho, de 40 anos, teve de deixar a casa com as duas filhas, de 9 e 15 anos. “Vamos para a casa de um amigo que ofereceu moradia. O prefeito não vem ver a situação, só vem para pedir voto.”

Ele mora a poucos metros dos locais de deslizamento. “Escutei gritos do pessoal pedindo socorro. A gente saiu batendo em tudo que é lugar, ligando para resgate, ambulância, polícia, Deus e o mundo.”

Com ajuda de amigos e das filhas, Letícia tirou grande parte dos pertences de casa. “Estamos tirando tudo, roupa, documentos, eletrodoméstico, infelizmente bens materiais que a gente conquistou com tanto suor.”

De acordo com o porta-voz do Corpo de Bombeiros, capitão Marcos Palumbo, 15 bombeiros trabalham nos resgates no Guarujá. Todo o trabalho de resgate é feito de forma manual, pois não há condições de utilizar máquinas. Segundo o capitão, há chances de novos deslizamentos.

“O corpo de bombeiros atua principalmente no Guarujá, onde temos 32 pessoas desaparecidas, sendo quatro no Morro do Macaco e 28 na Barreira do João Guarda. As equipes estão fazendo buscas em um terreno muito complicado e com chance de novos deslizamentos”, explicou Palumbo.

As equipes chegaram ainda durante a noite de segunda no Morro do Macaco. A chuva encharcou e desestabilizou o solo, provocando o “escorregamento da encosta, de quase todo o morro”. Bombeiros estimam que cerca de 30 residências foram atingidas. O local ainda representa muito perigo, segundo avaliação do capitão Palumbo.

A operação também usa cães para tentar encontrar pessoas soterradas.

Até agora, o Corpo de Bombeiros não divulgou o nome das vítimas. Informações preliminares dão conta de que entre os mortos haviam uma mulher e seu filho, um bombeiro e dois homens.

Mortes em Santos

Ainda conforme balanço divulgado no começo da tarde, Santos tem uma morte e 11 desaparecidos. São Vicente tem três desaparecidos.  Em Santos, a prefeitura decretou estado de atenção. A vítima, uma mulher de 30 anos, morreu soterrada em um deslizamento no Morro do Tetéu. O Corpo de Bombeiros resgatou com uma criança atingida por deslizamento no Morro do Fontana. Ela foi levada para a Santa Casa e continuava internada em estado estável.

Em Santos, os deslizamentos atingiram ainda os morros Santa Maria, São Bento, Vila Progresso e Monte Serrat – muitos moradores abandonaram as casas. A prefeitura distribuiu lonas plásticas para moradores de imóveis afetados. A Secretaria de Educação suspendeu as aulas em unidades de ensino devido às dificuldades de acesso. A escola Terezinha de Jesus Pimentel, no Morro de São Bento, está funcionando como ponto de acolhida para os desabrigados.

Dados do Núcleo de Gerenciamento de Emergência da Defesa Civil do Estado indicam que o acumulado nas últimas 12 horas de chuvas foi de 282 mm no Guarujá, 218 mm em Santos, 170 mm em Praia Grande, 169 mm em São Vicente, 160 mm em Mongaguá , 132 mm em Mongaguá, enquanto o acumulado foi de 110 mm Itanhaém e Bertioga.

Foram registradas ao menos quatro quedas de barreiras ao longo da Rodovia Doutor Manuel Hipólito Rego, em dois pontos da SP 055 (Rio-Santos) e outros dois da SP 061 (Guarujá-Bertioga), de acordo com informações do Departamento de Estradas de Rodagem (DER). O VLT da Baixada Santista também amanheceu paralisado nesta manhã, após deslizamento de terra próximo ao túnel que faz a ligação entre Santos e São Vicente.

Sistema Anchieta Imigrantes e Cônego Domenico Rangoni

Por volta das 11h30, o motorista também enfrentava congestionamento na Rodovia Anchieta, no sentido do litoral, do km 33 ao 40. Também havia tráfego lento do km 64 ao 65. Segundo a Ecovias, o motivo era apenas o excesso de veículos. Mais cedo, queda de barreira – provocada pelas fortes chuvas – interditou a via. Ainda havia congestionamento na Rodovia Cônego Domenico Rangoni, no sentido do litoral norte, do km 263 ao 268, região que também foi interditada mais cedo por queda de barreira. Em razão de neblina, a Interligação Planalto, no sentido da Imigrantes, também permanecia interditada entre o km 1 e 8, no fim da manhã desta terça-feira.

Em sua conta oficial no Twitter, o governador João Doria prestou sua solidariedade às vítimas do temporal. Doria chegou no final da manhã a Santos para uma reunião de emergência com os prefeitos das cidades atingidas pelas chuvas. Na prefeitura de Santos, além do prefeito da cidade, Paulo Barbosa (PSDB), Doria vai conversar também com os prefeitos de Guarujá e São Vicente. Os gestores apresentarão ao governador um balanço da tragédia causada pelas chuvas na região.

 

*Estadão

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