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‘Não vou sair da Presidência com a pecha de falcatrua’, diz Temer

O presidente Michel Temer durante entrevista em seu escritório em SP

Na sua primeira declaração sobre o afastamento de quatro vice-presidentes da Caixa, o presidente Michel Temer disse que não vai concluir seu mandato com a pecha de um “sujeito que incorreu em falcatruas”.

Temer recebeu a Folha em seu escritório de advocacia, em São Paulo, na quinta (18). Ele nega que tenha demorado a afastar os vice suspeitos de corrupção -a decisão foi tomada por ele na terça (16).

O presidente se defende de possíveis práticas suspeitas na sua relação com essas pessoas. Diz ainda que eles podem voltar aos cargos no banco e não descarta manter a prática de aceitar indicações políticas para essas funções.

*

Folha – O Ministério Público havia sugerido ao senhor o afastamento dos vice-presidentes em dezembro. Por que isso só ocorreu agora?

Michel Temer – Não sugeriu a mim, não recebi nenhuma comunicação. Foi um ofício ao chefe da Casa Civil que, por sua vez, encaminhou ao Ministério da Fazenda, que encaminhou à Caixa. Essas coisas você não faz a toque de caixa.
Quando me chegou aos ouvidos que o Banco Central havia recomendado o afastamento, tomei a cautela de afastá-los para que o Conselho da Caixa possa examinar o assunto, dando-lhes o direito à ampla defesa. As informações são de GUSTAVO URIBE e MARCOS AUGUSTO GONÇALVES – Folha de São Paulo.

A Casa Civil fica no andar superior ao gabinete presidencial. Como o sr. não sabia?

Mas não era nenhuma determinação, nem poderia ser. Porque o Ministério Público não determina nada para o Poder Executivo. Agora, quando o Banco Central recomendou o afastamento, tomei a providência.

O sr. sabia que estavam sendo investigados. Não acha que poderia ter se antecipado?

Não conhecia os pormenores da investigação. Como confesso que não conheço até hoje. Na minha função, não consigo acompanhar caso por caso. Esses casos têm de ser avaliados e não estou os incriminando. Acho que, cautelarmente, você os afasta para que depois o Conselho possa examinar. Porque também, se não tiverem culpa, eles podem até retornar a seus cargos. Se tiverem, não retornam.

No mesmo dia em que a Casa Civil respondeu ao ofício (do MPF) o senhor recebeu no gabinete presidencial o Gilberto Occhi (presidente da Caixa) e o Roberto Derziê (vice afastado).

Recebi mais. Eu recebi a Deusdina dos Reis e entre sete ou oito vice-presidentes porque assinei uma medida do FGTS para prover financeiramente a Caixa. Eu recebo com muita frequência.

O senhor não conversou com eles sobre a recomendação (de afastamento)?

Não, ninguém comentou nada, evidente.

Auditoria independente da Caixa recomendou que seja investigado o presidente Gilberto Occhi. Por que também não foi afastado?

Porque ainda não chegou nada mais concreto além disso. Não há nenhuma pressa em fazer essas coisas.

Nesse caso, o senhor adotou dois pesos e duas medidas?

Não. O Ministério da Fazenda e o Conselho da Caixa cuidam disso. Eles vão verificar o que fazer.

Na auditoria, o vice-presidente Roberto Derziê disse que recebia pedidos do senhor e do ministro Moreira Franco. O sr. incorreu em uma ingerência política indevida?

Em primeiro lugar, jamais, grife jamais, e coloque em sua cabeça em letras garrafais, pedi coisa de emenda ou dessa natureza. O Derziê conheço formalmente, não tenho relação pessoal. Eu jamais fiz nenhum pedido.

Ele está mentindo?

Ele não disse em relação a mim. Se disse alguma coisa relativamente a eu pedir e exigir isso, claro que está mentindo. Aliás, o que estou fazendo nos últimos tempos é recuperar os aspectos morais da minha conduta. Fico impressionado com a guerra de natureza moral e vou aproveitar essa entrevista para dizer isso.
De repente, chego à Presidência e sou vítima de uma avalanche que me transforma como se fosse um sujeito corrupto. Que permite a você fazer essas perguntas que está fazendo. Como se eu fosse um sujeito capaz das maiores barbaridades, ditas por um vice-presidente que tem relação formal comigo, cerimoniosa.

O sr. acha que está sendo perseguido?

Eu? Não, sou mal entendido. Há uma tentativa brutal de tentar desmoralizar o presidente. Neste ano, vou me dedicar, entre outras reformas, à minha recuperação moral. O que fizeram comigo foi uma coisa desastrosa.
Aliás, podem registrar que os meus detratores estão na cadeia. Quem não está na cadeia está desmoralizado. Mas a todo momento qualquer coisa é o presidente da República. Você percebe?

Mas de que maneira fará essa recuperação moral?

Permanentemente. Esteja certo de que não vou sair e não adianta dizer: “O Michel Temer ficou irritado”. Não fiquei, não. Não vou sair da Presidência com essa pecha de um sujeito que incorreu em falcatruas. Não vou deixar isso.

O sr. disse que os inimigos foram presos, mas amigos do senhor também foram.

Quem cometeu ilícitos está preso, simplesmente isso.

Os partidos continuarão a indicar nomes para a Caixa?

Não sei. Os nomes vão ser avaliados. O fato da indicação não significa nada. De repente alguém me indica, em uma maneira caricatural, um Albert Einstein para uma atividade cientifica. Posso acolher sem dúvida nenhuma.

Em depoimento, o ex-vice-presidente Antonio Carlos Ferreira relatou pressões do ex-deputado Eduardo Cunha por informações sigilosas da Caixa. E ele disse que conversou com o senhor e o senhor disse que apenas ele era um “deputado controverso”. Por que o senhor não denunciou a pressão para as autoridades competentes?

Ele não veio me dizer isso. Ele veio me dizer que o Eduardo estava pedindo que ele, que era líder na época, relatasse mensalmente ou quinzenalmente quais o casos que ele tinha atendido na Caixa e se ele deveria fazer isso ou não. Eu disse: “Olha, você deve cumprir as suas funções e nada mais que suas funções. Se alguém pressioná-lo para alguma coisa, você não tem de dar a menor importância a isso”. Foi isso o que disse.

Mas o Eduardo Cunha não estava indo além de suas competências?

Como líder (da bancada), talvez ele pudesse perguntar quem foi atendido e que não foi atendido tendo em vista os naturais pedidos que os próprios deputados fizessem a ele. Essa é a sensação que eu tive e tenho até hoje.

No dia que o sr. recebeu o diretor-geral da PF, Fernando Segovia, o senhor tratou das 50 perguntas da polícia em relação ao inquérito dos Portos? Não passa uma imagem não republicana ao ter um encontro desse na véspera da entrega das respostas?

Eu discuti sobre segurança pública. O que me surpreende é que o presidente não pode falar com o diretor-geral da Polícia Federal. Como se fosse criminoso. Eu já estava com as perguntas respondidas. São tão desarrazoadas, singelas, simplórias que não tinha nenhuma preocupação.

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