Um ano após escândalo, “entidade” João de Deus ainda assombra Abadiânia

O letreiro à chegada de Abadiânia mudou: tiraram o “Só Jesus Salva”, entrou um coração (Fotos: Paulo Sampaio/UOL)

Apenas um dos cerca de 80 quartos da pousada onde eu me hospedo em Abadiânia, cidade a 90 km de Goiânia, está ocupado. Se até um ano atrás o lugar ostentava gloriosamente reservas feitas com meses de antecedência, agora o salão do café da manhã encontra-se praticamente vazio. O valor da diária cobrado nos áureos tempos, segundo quem atende na recepção, chegava a ultrapassar os R$ 170. O blog pagou R$ 100.

A única mesa ocupada abriga uma senhora que veio do Rio chamada Ruth Nogueira, 83 anos, e o filho dela, o piloto submarino Alex Nogueira, 45 . Eles estão entre os fiéis remanescentes da Casa de Dom Inácio de Loyola, o hospital de curas espirituais comandado desde o começo dos anos 1970 pelo médium João “de Deus” Teixeira de Faria, 77 anos. Conhecido mundialmente como um líder capaz de operar milagres, Faria está preso preventivamente desde 16 de dezembro de 2018, sob a acusação de praticar mais de uma centena de crimes sexuais.
Fogo morro acima

Na madrugada deste domingo, 8 de dezembro, faz um ano que o programa do apresentador Pedro Bial, na TV Globo, levou ao ar depoimentos de quatro mulheres que acusavam o líder espiritual de assédio sexual e estupro. A partir do relato da bailarina holandesa Zahira Lieneke, única a se identificar, e de mais três brasileiras, deu-se uma avalanche de denúncias que, nos dias subsequentes, chegaram a centenas.

Na quarta-feira, 12 de dezembro de 2018, o Ministério Público pediu a prisão preventiva de João Teixeira de Faria. O advogado de defesa dele à época, Alberto Zacharias Toron, solicitou ao juiz permissão para que seu cliente mantivesse os atendimentos na casa, com escolta policial —mas não obteve sucesso. Fora de circulação, Faria foi considerado foragido, até que no domingo, 16, se entregou à polícia em uma estrada de terra batida da região.
Tonta de novo

Na mesa do café da manhã, Ruth diz que acredita na inocência de João de Deus: “Um homem que ajudou tanta gente não seria capaz de fazer o que dizem. É muita sujeira. Eu acho que, ó (roça o polegar no indicador), muitas dessas mulheres querem é dinheiro”.

Ela conta que recorreu ao médium porque “tinha uma tontura que médico nenhum conseguia resolver”. “Agora mesmo, olhando para você, tudo estaria girando.” Alex explica: “Mamãe foi ao melhor especialista do Brasil, em São Paulo, mas não deu em nada. Aí ela veio na casa, em agosto do ano passado e, durante a consulta, ela já não sentia mais nada”.

Depois da intervenção espiritual, o médium recomendou que Ruth voltasse em 80 dias. Porém, a notícia da prisão dele a fez adiar a consulta. “Quando eu soube, imediatamente a tontura voltou. Tive de me sentar, para não cair”, lembra.
Miss Escurinha

Peço para fazer uma foto de mãe e filho, Ruth se anima. Definindo-se como “extremamente vaidosa”, ela tem os cabelos avermelhados puxados em um rabo de cavalo alto, usa dois brincos dourados muito grandes e está toda de branco –como a maioria dos frequentadores da casa.

Ela comenta que, na década de 1950, foi eleita “Miss Escurinha” em um concurso de beleza carioca. Pede ao filho, com quem parece ter uma relação visceral, que pegue na bolsa colorida dela a foto do desfile para mostrar. Ele pega. “Imagine um concurso com esse nome, hoje em dia”, comenta Alex.

Ruth parece preocupada com o cenário que encontrará na Casa de Dom Inácio: “Estou com medo de chegar lá e não ter ninguém”. Foi quase isso…
Só orando

Segundo Kelly, a recepcionista, a casa costumava receber 1.500 pessoas em “dias de corrente” –quartas, quintas e sextas-feiras. Em datas muito importantes, o número subia para 2.000. E, em fins de semana próximos a feriados, de acordo com relatos de fiéis arrebatados, chegava ao dobro disso. Logo depois da prisão de João de Deus, no auge da crise, a frequência caiu para algo em torno dos 150. Mas Kelly afirma que eles estão se recuperando. “Agora, vêm uns 300.”

Na quarta-feira passada, o blog contou 37 pessoas na sala principal, onde uma voluntária chamada Luciana diz palavras de acolhimento, tendo como fundo musical o som de uma flauta. A coreografia é a mesma: um voluntário pede que levante a mão quem está ali pela primeira vez (duas pessoas); pela segunda vez, e os que vieram para “revisão”. Na sequência, todos se agrupam na corrente de oração.
Jogo de empurra

Não há ninguém para explicar porque na cadeira antes ocupada por João de Deus há agora uma imagem de Santa Rita; o voluntário Jardel pede que eu fale com o voluntário Wagner, que me orienta a falar com a voluntária Lara. “Não é jogo de empurra”, garante Wagner. Ninguém fala.

Enquanto isso, um dos mais antigos colaboradores da casa, Norberto Kirst, que vive em Abadiânia há 30 anos, presta um depoimento sobre o médium para um documentário produzido pela Netflix. “É preciso separar o homem João de Deus da entidade…”, diz ele, repetindo um texto defendido por boa parte dos que permanecem leais ao hospital da cura espiritual.

“A energia não está no João, está na cidade”, acreditam três francesas de Toulouse, uma delas em sua 12ª visita. A maioria das pessoas que circulam na casa são mulheres e estrangeiras.
Que entidade, que nada

No único restaurante aberto às 20h, na rua principal, um raro homem de branco, carioca, se aborrece quando pergunto se sua fé não foi abalada depois das denúncias contra o médium (denominação usada pela própria Kelly). “As pessoas não sabem nada sobre mediunidade! Eu nunca vim aqui por causa de João de Deus ou entidade nenhuma. Isso é uma casa de cura, não um centro espírita”, azeda ele, ao que parece bem distante de se curar.

Muitas vezes, o mau humor é previsível. Nem sempre é fácil, para quem busca apenas a “paz interior” (e não, como a maioria, a cura para um mal físico), desestressar. Não basta estar na cidade, vestir branco e falar aos sussurros. Os que agem assim costumam acreditar, com a mesma arrogância que os levou ao caos, que são mestres em harmonia. Encontram-se ali vários consultores nessa área.
Desastre de Fukushima

Todos têm grandes histórias para contar. Na mesa do carioca está uma japonesa que usa óculos de sol (são 20h), calças largas off-white, cardigan branco e bolsa Chanel nude. Um guarda-chuva: “Eu contraí uma doença depois do desastre [na usina nuclear] de Fukushima [causado por um terremoto seguido de tsunami, em 2011]”, conta ela, sem detalhar nada sobre a enfermidade. Diz que acredita em Jesus Cristo, é budista e veio a São Paulo para visitar parentes.

E como foi parar em Abadiânia? A impressão é de que ela não sabe responder à pergunta. Com a boca meio aberta, ela olha para longe. Subitamente, parece estar sob o efeito de um hipnótico.
Ladelá e ladecá

Atravessada pela rodovia BR-060, que liga Goiânia a Brasília, a cidade de 18 mil habitantes se divide em duas regiões bem distintas. Os habitantes de Abadiânia se referem a elas como “o ladecá” e “o ladelá”, dependendo do ponto de vista. À direita de quem segue para Brasília fica o centro –prefeitura, igreja, praça, coreto, posto de saúde. À esquerda da estrada, o lado espiritual, centralizado na Casa Dom Inácio de Loyola, conhecida simplesmente como “a casa”.

Desde a prisão do médium, a economia de Abadiânia experimentou uma ruína sem precedentes em seus 66 anos. Na Prefeitura, o diretor de comunicação informa que, em 2019, entre 1.500 e 2.000 pessoas perderam o emprego; 55 dos 63 estabelecimentos comerciais do ladelá (pousadas, restaurantes e lojas) fecharam suas portas. Não houve cristal ou pedra preciosa com energia suficiente para manter de pé o pujante comércio esotérico. “Os que não eram donos do ponto foram os primeiros a ir embora. Muitos saíram para Anápolis, outros para Brasília, Goiânia”, diz o comerciante Djalma, dono da loja Jo Modas, que vende de um tudo.

Aceita cartão?

Em decorrência da debacle, o preço do aluguel de imóveis caiu vertiginosamente. “Eu recebia R$ 12 mil por mês por um terreno do ladelá, onde estava uma pousada. O contrato era de 72 meses, mas o inquilino entregou o terreno e, agora, eu não consigo R$ 3.000 por ele”, lastima Helio Valença, 56 anos, dono da corretora de imóveis Sigilo. “Ainda bem que tenho outros negócios.”

Na porta da Casa de Dom Inácio de Loyola, as filas de táxis que operavam o vaivém de devotos desapareceram quase por completo. O estacionamento também está vazio (a não ser pelos carros de quem trabalha ali), e a lanchonete, idem. Apenas dois bolos de aveia com banana e açúcar mascavo jazem nas vitrines, com tristes legendas em português, inglês e alemão. A atendente informa que não aceitam mais pagamento com cartão (“o movimento caiu muito, não compensa”).
Sem nome

No geral, o que se nota é que a entidade João de Deus ainda assombra a cidade. Com o intuito de fugir de qualquer associação com o médium, alguns comerciantes que antes se valiam dos poderes sobrenaturais dele para atrair clientes, agora pedem para não mencionarem nenhum tipo de relação com o dito estuprador. “Nunca ouvi nada a respeito disso que falam dele. Aliás, se você puder não colocar o meu nome na reportagem, eu agradeço”, diz o dono de uma loja.

O curioso é que a maior parte da população nativa, de famílias que vivem na cidade há muitos anos, parece nunca ter tomado conhecimento da existência de João de Deus ou levado em consideração seus milagres. E isso não é de agora. Todos respondem com muita presteza quando se perguntam informações sobre a cidade, mas, ao ouvir o nome do médium, em geral se entreolham com meios sorrisos. Os mais autênticos esconjuram: “Eita, moço, eu não mexo co’esses trem, não!”
Poder e ego

Segundo alguns dos que migraram para a cidade por acreditar nos poderes do médium e da casa, resta agradecer. A publicitária paulistana Daniela Mazzariol, 52 anos, que há oito desembarcou na cidade a fim de se curar de crises de pânico, diz que se sente completamente apaziguada. “Vibro na frequência da gratidão”, afirma.

Muito falante, pilhada, Daniela acredita que o problema na Casa de Dom Inácio de Loyola foi o poder de João de Deus e o ego dos visitantes: “Descia gente de helicóptero, ministro do Supremo, ator, celebridade… E as que vinham de bolsa Prada e microshortinho (ela se contorce em uma pose sensual)? Sabe, gente, onde a gata pensa que vai assim? Mais respeito, né?”
Fenômeno mediúnico

Daniela continua frequentando a casa: “Eu não julgo ninguém. Não tenho nada a dizer do seu João. Até porque, digam o que quiserem, o cara é um fenômeno mediúnico!”

Segundo ela, “muita gente continua conectada, mas não aparece aqui para não pegar mal”. “Logo depois de tudo o que aconteceu, o povo me ligava direto para saber o que eu achava, se eu já tinha conhecimento dos assédios do seu João, e porque eu é nunca comentei. Fiquei tão estressada que saí um pouco de circulação”, conta ela, que trabalhava de “receptivo de grupos de turistas” e tinha clientes fechados até março deste ano. A maioria desmarcou.
Iluminação da Malásia

Superespiritualizado, o piloto de avião paulista Carlos Eduardo Monteiro, 42, desembarcou de mala e cuia em Abadiânia para investigar a energia da cidade. Parece que aprovou. Tanto, que comprou uma casa e uma fazenda na região. Mas o “mestre iluminado” que diz seguir está longe, na Malásia. É o Dhyan Vimal.

“Conheci o Dhyan quando morava em Vancouver, antes de vir pra cá, e ele já me autorizou a expandir seus ensinamentos”, informa Monteiro, apontando o tempo todo para o livro Urântia, nome também da fazenda. Na definição dele, o livro é “uma Bíblia menos manuseada”.

Na fazenda, ele instalou o restaurante Borboleta Azul, que tem 40 lugares e serve comida vegetariana. Asséptico, silencioso e voltado para um vale verde, o restaurante evoca ar puro e reforça a fantasia de purificação do organismo.

A cozinha fica à vista do salão e tem o mesmo aspecto reluzente. A comida é muito boa (confesso que sou suscetível a pratos purificadores). Comi salada, uma quiche de abobrinha, e experimentei a kombucha –uma bebida “probiótica gasosa”, que Monteiro apresenta como “um champanhe natural”. “Quero instalar aqui um centro de saúde através da alimentação natural, com respeito pela natureza”, diz.
Mais denúncias

Resta a quem ficou na cidade esperar para ver quais os próximos desdobramentos do escândalo João de Deus. Na semana passada, o médium foi denunciado pela 11ª vez, por crimes sexuais que teriam sido perpetrados com 11 mulheres, entre 2010 e 2016, duas delas menores de idade, de 14 e 12 anos. No caso de sete vítimas, o crime está prescrito.

A promotora Renata Caroliny Ribeiro e Silva diz que Faria foi denunciado também em uma ação civil pública, para garantir o eventual ressarcimento da vítimas, e em outras duas por porte ilegal de arma de fogo.

Uma dos nove promotores que atuam na força tarefa destacada para atuar no caso, Renata afirma que 319 mulheres procuraram o Ministério Público, mas apenas 144 formalizaram denúncias contra João Teixeira de Faria. Destas, 76 estão prescritas. “De acordo com a Justiça, elas não podem mais denunciar o acusado. Mas isso não significa que deixaram de ser vítimas. Seus casos dão força ao relato”.
456 anos

Até agora, a promotoria pediu 456 anos de pena mínima, mais indenização. “Fala-se em R$ 100 mil para cada mulher, mas isso está completamente fora de cogitação”, acha Marcos Maciel Lara, atual advogado de defesa de Faria. “O juiz já disse que serão R$ 15 mil, caso meu cliente venha a ser condenado.”

Os promotores explicam que, ao separar as denúncias, sua intenção é organizar a enorme quantidade de mulheres que acorreram ao MP. Para o advogado de defesa, “não passa de teatro para aumentar a dimensão dos fatos e impressionar a opinião pública”. “Isso só faz dificultar o processo. Se cada mulher tem direito a oito testemunhas, imagina quantas serão arroladas!”
De castigo

Ao orientar seu cliente a dar entrevista para apenas uma emissora de TV, Maciel argumentou que a Globo foi incorreta quando divulgou o laudo preparado por quatro médicos a respeito do estado de seu cliente. “Eles ignoraram que os quatro médicos já trabalharam com o psiquiatra do seu João, e o processaram. Significa que, como não se poderia garantir a imparcialidade, eles estariam sob suspeição.”

Assim sendo, Maciel resolveu convencer Faria a dar entrevista para a TV Record. Mas mudou de ideia. Na quarta-feira, disse ao blog que desmarcou a entrevista. Preferiu provar que seu cliente está tão debilitado, por falta de tratamento adequado na cadeia, que teria de ser liberado para cumprir prisão domiciliar.
Desumanidade

Maciel conta que desmarcou a entrevista com a Record porque “seu João não tem condições sequer de raciocinar”. “Ele está completamente abobado”, diz.

“Ele é um senhor de 77 anos, que perdeu 60% do estômago por causa de um câncer, tem quatro stents nas artérias e toma 19 medicamentos. Sabe por quantos médicos o presídio onde ele está é atendido? Dois. Que vão duas vezes por semana. É desumano!”

Complicado falar em desumanidade, nesse caso.

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