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A música como recurso para a saúde e o bem-estar

Nada como uma música para acalmar a cabeça e desviar os pensamentos ruins. Faz tempo, a gente sabe, que as obras musicais fazem bem ao espírito, tanto que temos uma expressão para confirmar isso. Como disse o musicista e pesquisador da UFRN Fábio Presgrave, a música “não só nos traz a paz, mas tem impacto em nossa saúde e em nosso bem-estar”. Essa é uma frase bastante usada também pela violoncelista, professora e pesquisadora na Centre for Performance Science da Royal College of Music, em Londres, Tania Lisboa, que na próxima sexta-feira, 16, vai ministrar a Aula Magna do semestre letivo de 2021.1 da UFRN, na qual discutirá A saúde e o bem-estar humano através da ciência da música.

Na aula, ela vai falar sobre como a música tem desdobramentos confirmados por pesquisas científicas na saúde. Aqui mesmo na UFRN, são muitos os estudos que tratam desse tema em diversas áreas. Em dissertação do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRN, Rafaela Leite Fernandes lembra que a relação entre música e saúde tem registros de milhares de anos atrás, desde a mitologia grega. Ela explica que a música “atinge diferentes formas e pode estimular as emoções e memórias, auxiliando na manutenção e restabelecimento do equilíbrio interno”.

Em seu trabalho, realizado num Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Natal, a pesquisadora observa que a “música, diante de sua expressão artística e cultural, embala o cotidiano da vida afetiva, social e profissional das pessoas, o que favorece sua saúde mental, ajuda a prevenir o estresse e promove o alívio do cansaço físico”.

Uma das referências usadas em diversos trabalhos científicos é o psiquiatra, músico e compositor argentino Rolando Omar Benenzon, que há muito desenvolve pesquisas com musicoterapia. Segundo Rafaela, esse autor refere-se à musicoterapia como um campo da medicina. “Através do movimento, da música e do som, procura abrir canais de comunicação no ser humano, produzindo, assim, os resultados terapêuticos desejados, bem como efeitos profiláticos e de reabilitação do indivíduo e de sua vida em sociedade”, diz em seu trabalho.

Em artigo científico apresentado à Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi (Facisa/UFRN) para obtenção do título de graduação em Enfermagem, Joycimara da Silva Sales de Medeiros assegura que a música faz parte de uma terapia com métodos não farmacológicos, não invasivos, de baixo custo e sem efeitos colaterais. Além disso, afirma que ajuda a fortalecer laços entre paciente e profissional, além de deixar o ambiente mais confortável, estabelecendo uma relação mútua de confiança entre eles.

Seu trabalho, que observou a música como recurso terapêutico em um grupo de convivência para idosos da cidade de Santa Cruz, No Trairi potiguar, constatou que esse recurso ajuda a baixar o nível de estresse e a reduzir os marcadores neuro-hormonais desse grupo específico. Ela constatou ainda que a música ajuda na liberação de hormônios, como a adrenalina, com a finalidade de relaxamento e bem-estar dos músculos do corpo.

“O uso da música com fins terapêuticos está relacionado a alguns benefícios, tais como: redução dos níveis pressóricos em idosos com problemas de pressão arterial e alívio da ansiedade, além da ação no sistema nervoso autônomo, diminuindo a respiração e a circulação e até mesmo os níveis de estresse”, explica Joycimara em sua pesquisa.

Outro estudo, dessa vez com mulheres em trabalho de parto, realizado no Hospital Maternidade Almeida Castro, de Mossoró, observou que a música possibilitou a redução da ansiedade, estresse, alívio das dores e auxiliou a tornar o momento mais especial, humanizado e acolhedor.

A pesquisadora Andressa Pascale Rosado dos Anjos Saraiva, que trabalhou esse tema no curso de especialização em Enfermagem Obstétrica, da Escola de Saúde da UFRN (ESUFRN), cita ainda dois estudos importantes em seu estado da arte. Em um deles, pesquisadores realizaram ensaio clínico controlado com 94 mães de recém-nascidos prematuros e constataram que a musicoterapia de improvisação diminuiu significativamente o ritmo cardíaco das mães e bebês. “Além disso, a terapia musical melhorou a frequência respiratória e a saturação de oxigênio, bem como deixou os bebês mais calmos, levando-os ao sono profundo após 30 minutos do término da sessão”, disse Andressa.

Ela relata também, trazendo outra pesquisa, evidências de que o aleitamento materno e as relações interpessoais são potencializadas quando aplicados os métodos musicoterápicos. Nesse trabalho, ela relata que os pesquisadores “identificaram que a musicoterapia teve efeito significativo no aumento do índice de aleitamento materno entre mães de recém-nascidos prematuros na primeira consulta, e uma influência positiva, embora não significativa, que se estendeu até 60 dias após a alta”, reforçou.

Em trabalho publicado na Revista Brasileira de Cancerologia, o professor Francisco Edilson Leite Pinto Junior, do Departamento de Cirurgia da UFRN, mostrou evidências de que a utilização da música teve efeitos importantes na redução da ansiedade de 29 pacientes com câncer de mama que se submeteram a cirurgias em um hospital em Natal. O ensaio clínico controlado, com randomização simples, dividiu as pacientes em dois grupos, experimental e controle, e utilizou como intervenção musical a peça As quatro estações do compositor Antonio Vivaldi.

“Todas as pacientes foram submetidas, no pré-operatório imediato, ao Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE-Estado), sendo verificados, também, os parâmetros fisiológicos (pressão arterial, temperatura, saturação sanguínea, frequência respiratória e cardíaca). No dia seguinte, foram aplicadas as escalas de dor, em ambos os grupos. Os dados foram analisados pelo software estatístico BioEstat, versão 5.0, com nível de significância estabelecido em 5,0%, sendo utilizado teste t-Student pareado”, diz o pesquisador no estudo.

O professor Marlos Alves, do Departamento de Psicologia (PSI) da UFRN, reforça que a música pode ter efeitos terapêuticos que diminuem a quantidade de estresse no corpo. “Estamos em uma sociedade na qual vivemos em função de muita performance, de muita pressão. A música pode ajudar com os estados ansiogênicos e também dos conectar com estados de contentamento, estados alegres da alma. Ela também pode ajudar a trabalhar processos como a depressão”, acrescenta.

Com estudos sobre memorização musical, música e autismo, expressividade na performance, entre outras temáticas, a convidada da Aula Magna da UFRN, Tania Lisboa, preferiu não adiantar as informações de sua aula. Contudo, como o tema está em evidência, a expectativa para sua fala é grande, considerando a possibilidade de compreensão desse universo que já é evidente na vida das pessoas. “A influência das artes na saúde e bem-estar permeia a literatura científica, em tempos que estamos lidando com as consequências de uma pandemia global, vamos falar como a música, além de nos inspirar e emocionar, tem desdobramentos confirmados por pesquisas científicas na nossa saúde e bem-estar no século 21”, adianta.
Aula Magna

Marcada para às 9h desta sexta-feira, 16, a Aula Magna do semestre letivo de 2021.1 da UFRN não só falará de música, como também será realizada com música. Na abertura, o professor Fábio Presgrave, da Escola de Música da UFRN (EMUFRN), fará uma apresentação de uma versão solo que fez da composição A Paz, de Gilberto Gil e João Donato. A atividade cultural será seguida das boas-vindas do reitor José Daniel Diniz Melo, que também é instrumentista. Logo após, Tania apresenta sua aula sobre a importância da música para a saúde, destacando como a arte proporciona bem-estar para as pessoas.

A Aula Magna será transmitida pela TV Universitária (TVU) – Canal aberto digital 5.1/Cabo Natal 802 HD – e pelo canal da UFRN no YouTube. Durante o evento, o público poderá enviar perguntas pelo chat, que serão respondidas pela violoncelista no final da palestra. Quem quiser receber certificado de participação deve efetuar inscrição no Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (Sigaa) e confirmar presença no formulário que será disponibilizado no chat durante a Aula no YouTube.

A convidada
Tania Lisboa diplomou-se com medalha de ouro pelo Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos de Tatuí, em São Paulo. Com estudos de pós-graduação na Guildhall School of Music and Drama, City University, em Londres (Inglaterra), e na University of Sheffield, em Sheffield (Inglaterra), estudou com a renomada violoncelista Maud Tortelier, na França.

Como violoncelista, Tania vem se apresentando nos Estados Unidos, Japão, Coréia, Turquia, Polônia, Itália, França, México, Venezuela, Canadá e Inglaterra. Desde 2001, atua como professora doutora e pesquisadora no Centre for Performance Science da Royal College of Music em Londres, onde também coordena o programa de Synchronous Online Learning.

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