Idoso de São Rafael morre com suspeita de covid-19 e a espera pela UTI vira notícia no Estadão

O bafafá envolvendo o prefeito de São Rafael, o deputado George Soares, a governadora Fátima Bezerra e a SESAP/RN, sobre de quem é a culpa na demora por uma UTI para o idoso suspeito de COVID em São Rafael, virou noticia no Estadão, depois de sua morte. Confira abaixo:

Após passar 72 horas à espera de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), um idoso de 80 anos com suspeita de covid-19 morreu na noite de quarta-feira, 20, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na cidade de São Rafael, distante 216 quilômetros de Natal. O município está localizado na Região Oeste, cujos leitos gerais de UTI destinados aos casos suspeitos e confirmados de covid-19 estão lotados, com taxa de ocupação em 97%. Em São Rafael, não há respirador mecânico disponível na unidade de saúde local.

O óbito de Asclepíades Jales ocorreu enquanto a equipe médica o preparava para levá-lo ao Hospital Regional do Seridó, em Caicó, distante aproximadamente 100 quilômetros de São Rafael e em outra região do estado. O Rio Grande do Norte tem, até esta quinta-feira, 178 mortes por covid-19 e 4.060 casos confirmados da doença, conforme a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN). Os suspeitos superam os 12 mil.

Conforme relato de Aldenir Jales, filha de Asclepíades Jales, que completou 80 anos em outubro do ano passado, o idoso procurou a UPA de São Rafael no início da noite da segunda-feira, 18, com pico de pressão. Na ocasião, ele apresentava alguns sintomas da covid-19. Foi testado, mas o teste rápido deu negativo para a doença. A equipe médica, porém, desconfiou de um falso negativo em razão do exame ter sido feito com menos de sete dias de sintomatologia e colheu material para um exame mais detalhado, a contraprova, cujo resultado ainda não foi divulgado.

Antes da tentativa de transferência de São Rafael para Caicó, os médicos tentaram regular o paciente para a cidade de Mossoró, também na região Oeste, mas não obtiveram sucesso em decorrência de um impasse entre as Secretarias Municipal de Saúde de Mossoró e a de Estado da Saúde Pública. Após a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), a Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró assumiu a gestão da regulação de leitos para todos os municípios da região Oeste do Estado.

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) esclarece que não houve até a tarde da quarta-feira, 20, uma solicitação no sistema da Central Metropolitana de Regulação por parte do município de São Rafael para realizar a regulação e transferência do paciente com suspeita de covid-19.

“O paciente estava desde a noite de segunda-feira (18) em uma unidade de pronto atendimento do município e a vaga foi solicitada junto à Central de Regulação de Leitos de Mossoró, que constatou junto às unidades hospitalares da região Oeste que não havia vagas de leitos críticos”, declarou a Sesap/RN. A Secretaria Municipal de Saúde de Mossoró não se pronunciou sobre o assunto. Procurada, a assessoria de imprensa da pasta não respondeu ou retornou as tentativas de contato feitas pelo Estadão.

Conforme dados da pasta estadual de Saúde atualizados no início da tarde desta quinta-feira, 21, existem 395 pacientes internados em leitos públicos e privados para tratamento de covid-19 no RN. Desses, 199 em leitos críticos (UTI) e outros 196 em leitos clínicos. Na lista de espera da Central de Regulação, estão 61 pacientes aguardando remoção para um dos hospitais estaduais. Onze dele estão em situação crítica, necessitando de um leito de UTI com urgência e outros 50 pacientes demandam por leito clínico com ponto de oxigênio, os chamados leitos qualificados.

A Sesap/RN afirmou, via nota oficial, que foi informada da situação do paciente na tarde da quarta-feira, 20. “Ao saber por vias extraoficiais que o paciente ainda não havia sido regulado e tendo em conta leitos de UTI vagos no Hospital Regional do Seridó, em Caicó, a Sesap solicitou que fosse encaminhado o pedido de regulação à Central Metropolitana. Assim que o pedido deu entrada no sistema o paciente teve vaga reservada e transferência autorizada para o município de Caicó. Infelizmente, antes de conseguir realizar o transporte, que já se encontrava na UPA de São Rafael, o idoso foi a óbito”.
Dificuldades

O governo estadual do Rio Grande do Norte tem encontrado dificuldades para abertura de novos leitos de UTI específicos para covid-19. Faltam respiradores no mercado, mão de obra especializada e uma licitação para um Hospital de Campanha acabou cancelada por duas vezes pelos elevados custos apresentados pelas empresas concorrentes ao certame.

Mais recentemente, um contrato firmado por dispensa de licitação para abertura de até 60 leitos de tratamento crítico e de clínica médica assinado entre a Sesap/RN e a LIGA Contra o Câncer, instituição filantrópica com atuação no Rio Grande do Norte, foi alvo de auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE/RN) que apontou sobrepreço nas diárias de UTIs contratadas. Enquanto a média tabulada em outros hospitais do estado foi de R$ 1,6 mil, no contrato com a LIGA ficou em torno de R$ 3,2 mil. O estado e a LIGA defendem a lisura do contrato afirmando que o perfil dos leitos contratados, para pacientes oncológicos, diverge dos demais hospitais do Rio Grande do Norte.
A dor da despedida

A família de Asclepíades Jales, evangélica, busca em Deus o consolo para a morte do idoso. O homem que sempre tinha amigos por perto, que tirava de um armazém de rações na cidade o seu sustento, era querido por todos. “Foi a vontade de Deus ter levado meu pai. Ele foi bem atendido em São Rafael, mas não deu tempo fazer a transferência”, lamentou a filha Aldenir Jales.

A neta Júlia Jales, pela qual o avô tinha um carinho especial, lamentou a partida repentina daquele que ela chamava carinhosamente de “Vovô Pide”. “Eu sinto muito pela partida de vovô “Pide”, é uma sensação de que poderia ser diferente… Mas que Deus o tenha e sentirei muitas e eternas saudades!”, relatou ao Estadão.

O neto Kawenderson Jales usou as redes sociais para homenagear e se despedir do avô. “Chegou o fim do dia e com ele a notícia que eu não queria ter recebido veio, meu avô partiu. Meu coração dói…é difícil mais no fundo sei que Deus sempre tem o melhor para a nossa vida. Meu vô me ensinou a ser honesto, foi um exemplo de humildade e de sucesso, que lutou e que venceu na vida, mas que nunca tirou o pé do chão nem perdeu a essência e a humildade, que criou seus 11 filhos, 14 netos e 7 bisnetos da melhor forma possível e deixa pra nós um legado. Vô sei que não pôde me ouvir mais eu posso te sentir, porque o senhor ainda está vivo dentro do meu coração dentro do coração de cada um de nós, o seu sorriso, suas brincadeiras, o jeito de amar e cuidar de cada um que só o senhor tinha”.

 

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